por João Encarnação 27.09.2021
No âmbito de uma
série sobre espécies aquáticas invasoras publicada em parceria com o
projecto LIFE Invasaqua, João Encarnação, investigador
do CCMAR
– Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve,
apresenta-nos este caranguejo que já se encontra por toda a costa sul de
Portugal.
Que espécie é esta?
O caranguejo azul (Callinectes
sapidus) é facilmente distinguível de outras espécies de caranguejos em
Portugal, seja pelas suas dimensões, podendo atingir 30 centímetros de largura
e 700 gramas de peso, seja pela coloração azul das suas patas. Originário do
Atlântico Oeste (desde a América do Norte até à Argentina), foi detetado pela
primeira vez em Portugal em 1978, no estuário do Tejo.
Caranguejo azul ovado na Ria
Formosa. Foto: Duarte Bagarrão/NEMA
Onde
é que está presente em Portugal?
Sendo uma espécie que tolera
extremamente bem diferentes gamas de salinidade, este caranguejo pode ser
encontrado tanto na zona costeira como em estuários – mesmo em zonas de água
salobra e baixas salinidades. Até 2016, apenas se tinham registado cinco indivíduos
em todo o território português, mas entre 2016 e 2017 este cenário alterou-se
drasticamente: houve uma escalada no número de registos no sul do país, em
especial no estuário do Guadiana e na Ria Formosa.
A contribuição do cidadão comum
foi também fundamental para a deteção e seguimento desta rápida expansão na
costa do Algarve, através da campanha de ciência cidadã NEMA – Novas
Espécies Marinhas do Algarve. Esta permitiu perceber que em 2019 a
espécie já se encontrava em toda a costa sul do país, desde Vila Real de Santo
António até Sagres, incluindo todos os principais sistemas estuarinos e
lagunares desta costa.
Caranguejo
azul fêmea no estuário do Guadiana, ainda imatura pela forma triangular do
abdómen. Foto: João Encarnação/NEMA
E como
é que chegou ao território português?
A chegada dos primeiros
indivíduos é sempre difícil de identificar, sendo que durante a primeira metade
do século XX foram poucos os registos em toda a Europa. Sendo uma espécie
nativa do Atlântico Oeste, os primeiros indivíduos poderão ter chegado ainda em
estado larval dentro de águas de lastro de navios transatlânticos que chegam
frequentemente ao porto de Lisboa. Mas aparentemente, estas populações nunca se
estabeleceram ou se conseguiram multiplicar em números expressivos.
No entanto, a recente vaga no sul
do país poderá ter origem em Espanha, onde já existiam registos da espécie no
golfo de Cádis – por exemplo no estuário do Guadalquivir, que fica próximo da
fronteira portuguesa. Neste caso, terá havido uma expansão natural da espécie,
quer de indivíduos adultos quer através do transporte de larvas por correntes
costeiras.
Pesca
de caranguejo azul no estuário do Guadiana. Foto: João Encarnação/NEMA
Mas
afinal qual é o problema com o caranguejo azul?
Sendo uma espécie com uma elevada
capacidade de reprodução, atingindo a maturidade em cerca de um ano, e
tolerando uma elevada gama de condições ambientais, este caranguejo tem assim
capacidade de colonizar diversos habitats em pouco tempo. Essas capacidades,
somadas às dimensões que atinge e à agressividade e carácter oportunista na
busca de alimento, tornam este caranguejo num invasor perfeito.
Por outro lado, em Portugal,
pelas suas características singulares, esta espécie tem poucos predadores
naturais, especialmente quando atinge a idade adulta. Sendo conhecido que
prefere ambientes estuarinos, está em posição privilegiada como predador de estágios
juvenis de muitas espécies de elevado interesse comercial, que nestas zonas
procuram refúgio durante o seu desenvolvimento. No Algarve foram já inúmeros os
relatos de danos em redes de pesca, bem como o consumo de espécies alvo da
pesca profissional enquanto ainda se encontram nas artes de pesca,
inviabilizando a sua venda.
Como
é possível controlar ou erradicar as populações desta espécie?
Estando presente desde as zonas
costeiras marítimas até às zonas estuarinas, a erradicação é simplesmente
impossível. Mas uma vez que tem valor comercial e gastronómico na sua área
nativa, a pesca direcionada a este caranguejo poderá ter um papel importante
para o controlo dos seus impactos negativos nas áreas invadidas. No entanto,
esta opção terá de ser acompanhada por uma regular consciencialização sobre a
problemática das invasões biológicas e pela promoção de boas práticas que
evitem a disseminação deste invasor para mais ecossistemas. Isso para que seja
possível manter-se o foco no controlo da dispersão desta espécie.
Pesca
de caranguejo azul no estuário do Guadiana. Foto: João Encarnação/NEMA
E
qual é a situação noutros sítios do mundo onde é invasora?
O caranguejo azul encontra-se
hoje praticamente em todas as zonas costeiras da Europa, desde o Mar do Norte
ao Mar Mediterrâneo. No Mediterrâneo Este, existe em elevadas abundâncias já
desde há algumas décadas, suportando assim também uma pequena indústria
dirigida ao mesmo. Nas zonas mais a norte do Mediterrâneo, à boleia do
aquecimento das temperaturas médias do mar, tem sido detetado em vários novos
locais e em quantidades cada vez maiores.
Um paralelismo com as costas
portuguesas pode também ser feito, já que a costa sul, em média mais quente,
pode assim ser uma fonte de indivíduos que podem vir a colonizar a costa oeste
de Portugal. Este cenário, especialmente nos próximos anos à medida que as
temperaturas médias do mar continuem a aumentar, podem assim tornar a costa
oeste mais apetecível para o caranguejo azul.
Pesca
de caranguejo azul no estuário do Guadiana. Foto: João Encarnação/NEMA
Uma
curiosidade…
Estudos preliminares no estuário
do Guadiana indicam que uma das fontes de alimento que poderá estar a suportar
o crescimento do caranguejo azul neste estuário é a medusa Blackfordia
virginica, também ela uma espécie invasora em Portugal. Já em Espanha, no
Delta do Ebro, na Catalunha, foi também identificada a predação de amêijoas de
água doce do género Corbicula, também elas uma espécie invasora que
ocorre em vários locais de Portugal, incluindo o médio e alto estuário do
Guadiana. Parece assim haver uma espécie de “ciclo vicioso” entre espécies
invasoras nesta zona do rio Guadiana.
Série Espécies
Aquáticas Invasoras
Em parceria com o
projecto LIFE Invasaqua, a Wilder dá-lhe a
conhecer algumas das principais espécies aquáticas invasoras em Portugal.
O LIFE
Invasaqua é um projecto ibérico co-financiado por fundos
comunitários que divulga informação acerca da ocorrência e combate a espécies
invasoras.
Recorde o que se
passa em Portugal com o siluro, o mexilhão-zebra, a rã-de-unhas-africana, o alburno, a amêijoa asiática, o caranguejo-peludo-chinês, a amêijoa-japonesa, a gambúsia, o lagostim-sinal, a medusa Blackfordia virginica e o lucioperca.
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